Mumia, do outro lado <br> do corredor da morte

António Santos

«Decidi passar os meus dias no corredor da morte a preparar-me para a vida» disse uma vez Mumia Abu-Jamal, acrescentando: «eu acredito na vida, na liberdade». Depois de sobreviver a 35 anos de cárcere, 30 dos quais em solitária e no corredor da morte, o jornalista, revolucionário e preso político mais conhecido dos EUA é novamente alvo de uma tentativa de execução, desta vez por negligência médica.

No passado dia 30 de Março, soube-se que Mumia tinha dado entrada na enfermaria da prisão SCI Mahanoy, na Pensilvânia, em choque diabético. Preocupados, família e amigos não perderam tempo e quiseram visitá-lo. Sem qualquer justificação, não o puderam fazer durante dias e só após uma forte campanha internacional foi possível à família encontrar-se com Mumia.

«Quando o vi, não podia acreditar nos meus olhos» contou-me Wadiya Jamal, a companheira de Mumia. «Em cinco semanas perdeu 36 quilos... a pele dele está coberta de crostas pretas, que sangram e fazem comichão... os níveis de glicémia estão descontrolados...» Para Wadiya, não sobram dúvidas: «Estão a matar o meu marido, a envenená-lo. Ele nunca foi diabético, agora está à beira do coma». Uma negligência médica que assume contornos de sentença de morte: apesar do eminente risco de vida, Mumia não está a ser seguido por especialistas e não tem uma alimentação especial. Contra este crime, está em marcha uma campanha para exigir que Mumia tenha acesso a uma equipa de nutricionistas, endocrinologistas e dermatologistas da confiança da família. «Não conseguiram matar o Mumia com balas, nem com torturas nem com espancamentos. Por isso, estão a tentar matá-lo com falta de atenção médica. Não conseguiram derrotar-nos no corredor da morte, então estão a tentar nos hospitais, mas é demais... acabámos de perder a nossa filha» diz Wadiya, com a voz embargada de lágrimas.

Braço-de-ferro com o capitalismo e a morte

«O meu marido está inocente» prossegue Wadiya, «foi preso por defender os pobres, os trabalhadores, os oprimidos de todas as cores e de todos os países». Com efeito, segundo documentos desclassificados do FBI, o então dirigente do Partido Pantera Negra era, desde os anos 70, um alvo político a abater. A oportunidade surgiu em 1981, quando Mumia se viu envolvido num confronto de que resultou morto um polícia: convenientemente, o activista afro-americano foi acusado do crime, que sempre negou. A investigação ficou a cargo da COINTELPRO, a infame polícia política de J. Edgar Hoover, que se dedicou a fabricar confissões, provas e testemunhos, só recentemente desmentidos. No total, dos 35 polícias envolvidos na recolha de provas, 15 foram mais tarde presos por falsificação de provas. Kenneth Freeman, um dos principais suspeitos do crime, foi encontrado morto, nu, amordaçado, algemado e com uma seringa no braço. Segundo o relatório da polícia, tratou-se de uma «morte natural». O julgamento-farsa que se seguiu foi presidido por Albert Sabo, um juiz reconhecidamente fascista, que durante o julgamento prometeu «fritar esse preto». Sem surpresas, Mumia foi condenado à morte.

Mumia atravessou um corredor da morte de 30 anos de solitária e saiu do outro lado, de cabeça erguida, quando há cinco anos um juiz reconheceu que subsistiam demasiadas dúvidas para o executar. Até hoje, Mumia manteve-se ferozmente crítico do capitalismo, do imperialismo e do racismo, tendo publicado oito livros e mais de 600 artigos. Para Johanna Fernadez, professora de História na Universidade da Cidade de Nova Iorque e coordenadora da campanha internacional pela libertação de Mumia, é exactamente por isso que contínua preso: «Mumia está preso porque articula verdades desconfortáveis: mostra a centralidade do racismo no projecto de capitalismo americano». Johanna denuncia a hipocrisia desse projecto imperial, que gesticula «direitos humanos» e «liberdade política» fora das suas fronteiras, quando «a crise de presos políticos nos EUA é um dos grandes segredos sujos deste país». Para Johanna, «o único caminho é o da solidariedade internacionalista». Foi com este espírito que, na sexta-feira, se realizaram concentrações um pouco por todo o mundo, alargando o movimento cada vez maior que, como Fidel Castro e Nelson Mandela, exige a libertação de Mumia.

Do outro lado deste longo corredor da morte não pode haver mais morte. Mumia passou 35 anos preso por um crime que não cometeu, a denunciar as injustiça do mundo, a preparar-se para a vida. Deixem-no vivê-la em liberdade, antes que seja tarde. Libertem-no agora.




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